Regra do 3x e lipase, etiologia biliar e alcoólica, classificação de Atlanta revisada e Balthazar, hidratação moderada com ringer lactato, timing da CPRE e da colecistectomia, step-up na necrose infectada e pseudocisto. Duas questões comentadas: SUS-SP 2024 e INEP 2017.
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Para que serve
Da dor em faixa ao pseudocisto, com as condutas que mudaram e as pegadinhas que a banca repete.
Leve, moderadamente grave e grave pela falência orgânica, com o corte de 48 horas, e os graus A a E do escore de Balthazar na tomografia.
Ringer lactato em taxa moderada de 1,5 mL/kg/h depois do WATERFALL, morfina liberada, realimentação precoce e nenhum antibiótico profilático.
SUS-SP 2024 (enzima e gravidade) e INEP 2017 (pancreatite biliar grave com colangite), com o comentário de cada alternativa.
Sumário
Da ativação enzimática dentro do pâncreas à drenagem endoscópica do pseudocisto.
Pelos critérios de Atlanta, a pancreatite aguda é classificada pela presença e pela duração da falência orgânica. Leve: sem falência orgânica e sem complicações locais ou sistêmicas. Moderadamente grave: falência orgânica transitória, que resolve em até 48 horas, ou complicações locais ou sistêmicas. Grave: falência orgânica persistente, por mais de 48 horas.
A classificação de Atlanta revisada, de 2012, é o sistema universalmente aceito e se baseia na fisiologia: presença e duração da falência orgânica. A persistência da falência orgânica é o principal determinante da mortalidade: se o órgão não se recupera em 48 horas com ressuscitação volêmica, o prognóstico é reservado. SIRS persistente por mais de 48 horas é o principal preditor precoce de gravidade.
O nível da enzima não mede gravidade. Lipase de 4.000 pode estar numa pancreatite leve, e lipase de 400, numa necrosante grave. Na questão SUS-SP 2024 da apostila, a alternativa incorreta é a que correlaciona grandes elevações enzimáticas com a gravidade. Enzima serve para diagnosticar; a gravidade é definida pela falência orgânica.
A TC com contraste é o exame definitivo para morfologia e complicações, mas não na entrada: a necrose só fica clara após 72 a 96 horas. O escore de Balthazar, que as bancas ainda cobram, vai de A (pâncreas normal) a E (duas ou mais coleções ou gás). O sinal tomográfico mais sensível de inflamação é a densificação da gordura peripancreática.
A mortalidade geral é inferior a 5%, cerca de 3% na forma intersticial e cerca de 17% na necrosante. A necrose começa estéril em 80% dos casos; a infecção é tardia, por translocação bacteriana. Piora após 10 a 14 dias em paciente com necrose conhecida sugere necrose infectada, e gás dentro da coleção na TC é o sinal patognomônico.
Comparativo
O conceito-chave e a pegadinha de cada etapa, do diagnóstico à necrose infectada.
| Tema | O que a banca cobra | Pegadinha |
|---|---|---|
| Diagnóstico | 2 de 3 critérios: clínica característica, amilase e/ou lipase > 3x o LSN, imagem compatível | Nível da enzima não se correlaciona com gravidade; a lipase dura mais e serve à apresentação tardia |
| Etiologia | Litíase biliar (40 a 70%), seguida do álcool (25 a 35%); USG de abdome como exame inicial | Microlitíase e lama biliar podem escapar ao USG e aparecer na ecoendoscopia |
| Gravidade | Atlanta revisada (2012): falência orgânica persistente (> 48 h) define a forma grave | Necrose se associa a quadros graves, mas não é o único critério |
| Conduta inicial | Ringer lactato em taxa moderada (1,5 mL/kg/h) e analgesia, com opioide quando preciso | Antibiótico profilático não está indicado |
| Nutrição | Via oral precoce na forma leve; enteral por sonda se não tolerar a via oral em 48 a 72 h | Esperar a amilase ou a lipase normalizar para reiniciar a dieta é erro |
| Pancreatite biliar | CPRE de urgência só com colangite aguda concomitante | Sem colangite ou obstrução persistente, a CPRE não é rotina |
| Colecistectomia | Leve: na mesma internação. Grave ou necrosante: tardia, após 6 a 8 semanas | Adiar a cirurgia na forma leve aumenta o risco de recorrência |
| Necrose infectada | Step-up: antibiótico, drenagem percutânea ou endoscópica e, se falhar, necrosectomia minimamente invasiva | Intervenção adiada por cerca de 4 semanas, até a necrose encapsular (WON) |
Arraste a tabela para o lado.
Na prática
O manejo na ordem da apostila, do diagnóstico à complicação tardia.
Dor epigástrica intensa e persistente, em faixa para o dorso em cerca de 50% dos casos; amilase e/ou lipase acima de 3 vezes o limite superior, com preferência pela lipase; imagem compatível. Clínica típica com enzimas acima de 3x basta: não atrase o tratamento pedindo TC.
O USG de abdome é o exame inicial para todos e serve para achar cálculo ou lama biliar; o pâncreas costuma ficar encoberto por gases. Sem causa biliar ou alcoólica, investigue hipertrigliceridemia acima de 1.000 mg/dL, pós-CPRE, medicamentos como azatioprina e valproato, trauma e genética abaixo dos 35 anos.
Leve sem falência orgânica nem complicações; moderadamente grave com falência transitória (até 48 horas) ou complicações locais ou sistêmicas; grave com falência persistente por mais de 48 horas, que pede UTI. Hematócrito acima de 44% na admissão que não cai com hidratação indica mau prognóstico.
Cerca de 1,5 mL/kg/h, após bolus se houver hipovolemia: o estudo WATERFALL mostrou mais sobrecarga hídrica com hidratação agressiva. Reavalie a cada 6 horas: diurese acima de 0,5 mL/kg/h, PAM de 65 a 85 mmHg, queda do hematócrito e da ureia. Morfina é permitida.
Na forma leve, dieta oral sólida pobre em gordura assim que houver fome e não houver vômitos. Sem tolerar a via oral em 48 a 72 horas, nutrição enteral por sonda nasogástrica; NPT só como último recurso. Antibiótico apenas com infecção comprovada.
CPRE de urgência só com colangite aguda concomitante, pela tríade de Charcot, ou obstrução persistente. Colecistectomia na mesma internação na pancreatite biliar leve; na grave ou necrosante, após 6 a 8 semanas. Sem a colecistectomia, a recorrência chega a 25-30%.
TC com contraste após 72 a 96 horas, lida pelo Balthazar. Necrose infectada: step-up e intervenção adiada por cerca de 4 semanas. Pseudocisto ou WON assintomático: observar. Com sintomas, infecção ou crescimento: drenagem endoscópica transluminal, evitando a percutânea como tratamento definitivo.
Perguntas frequentes
Com 2 de 3 critérios: dor abdominal característica (epigástrica, intensa, persistente, muitas vezes em faixa para o dorso), amilase e/ou lipase acima de 3 vezes o limite superior da normalidade e imagem compatível. Clínica típica com enzimas acima de 3x fecha o diagnóstico sem TC na admissão. A lipase é preferível e permanece elevada por 8 a 14 dias.
É o escore tomográfico que as bancas ainda cobram, embora Atlanta seja a classificação mais usada na clínica. A: pâncreas normal. B: aumento do pâncreas. C: inflamação da gordura peripancreática. D: uma coleção líquida. E: duas ou mais coleções ou gás no pâncreas. A apostila ensina a lógica dos graus, sem exigir a pontuação exata.
Só com infecção comprovada ou suspeita forte. A pancreatite começa como processo inflamatório químico e estéril; a profilaxia não reduz mortalidade, não previne infecção da necrose e seleciona bactérias multirresistentes e Candida. As indicações são foco extrapancreático, como pneumonia, ITU ou colangite, e necrose pancreática infectada, tratada com carbapenêmico.
Na fase inicial, não: o manejo é suporte com hidratação, analgesia e nutrição. A cirurgia entra em dois contextos. Na pancreatite biliar, a colecistectomia evita recorrência, na mesma internação na forma leve e após 6 a 8 semanas na grave. Na necrose infectada, a necrosectomia aberta é a última etapa do step-up.
Só com colangite aguda concomitante (febre, icterícia e dor) ou obstrução biliar persistente; pancreatite biliar isolada não pede CPRE de rotina. Na questão INEP 2017 da apostila, a paciente com pancreatite biliar grave evolui com febre, icterícia e cálculo impactado no colédoco: a resposta é antibiótico de amplo espectro e CPRE com esfincterotomia.
As duas são complicações tardias, após 4 semanas, quando a coleção ganha cápsula fibrosa. O pseudocisto vem da pancreatite intersticial e tem conteúdo só líquido e homogêneo. A WON vem da pancreatite necrosante e mistura líquido com debris sólidos. Pequena e assintomática, observa-se; com sintomas, complicação ou crescimento, drenagem endoscópica transluminal.
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Cirurgia Geral
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