Da contagem de reticulócitos à reposição de B12: VCM e RDW, cinética do ferro na ferropriva, na doença crônica e na talassemia, folato × B12 pelo ácido metilmalônico e dois casos clínicos resolvidos.
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Para que serve
Três anemias hipoproliferativas na ordem da investigação: classificar pelo hemograma, confirmar pela dosagem e definir o tratamento.
Ferritina, ferro sérico, TIBC, saturação de transferrina e RDW das três em uma tabela. Ferro baixo com ferritina alta fecha doença crônica.
Reticulócitos sobem em cerca de 4 dias e a Hb começa a subir em 7 a 10 dias. Ela ganha cerca de 1 g/dL em 2 semanas, com resolução completa em 6 a 8 semanas.
Homocisteína alta nas duas deficiências. O ácido metilmalônico decide: normal aponta folato, alto aponta B12, a única que dá quadro neurológico.
Sumário
Da definição de anemia até a reposição de B12, na ordem em que a investigação acontece.
As anemias carenciais são anemias hipoproliferativas por falta de material para fabricar hemácia: a ferropriva, por falta de ferro, e a megaloblástica, por falta de folato (B9) ou de vitamina B12. Os reticulócitos ficam abaixo de 2% ou de 100.000. A anemia de doença crônica entra no diagnóstico diferencial: a hepcidina prende o ferro no macrófago.
O primeiro passo para separar as causas é a contagem de reticulócitos. Acima de 2% ou de 100.000, a medula responde, como no sangramento agudo e na hemólise; abaixo, a anemia é hipoproliferativa. Depois o VCM organiza o raciocínio: abaixo de 80 é microcítica, acima de 100 é macrocítica. Na microcitose, RDW acima de 14,5% aponta ferropriva e RDW normal aponta talassemia.
A ferritina é o primeiro exame a cair na ferropriva, antes da anemia. Na doença crônica, a inflamação faz o fígado produzir hepcidina, que fecha a ferroportina, bloqueia a absorção intestinal e retém o ferro no macrófago. A ferritina sobe porque também é proteína de fase aguda. Ferro baixo com ferritina alta fecha anemia de doença crônica.
Ferropriva no adulto ou no idoso obriga a procurar sangramento do TGI, com suspeita de câncer colorretal. A colonoscopia é o exame preferencial, e o paciente sintomático vai direto a ela, sem pSOF antes. O sulfato ferroso começa já durante a investigação, e a ferritina acima de 50 ng/mL guia a suspensão. Ressecção ileal não afeta o ferro, que é absorvido no duodeno.
Na megaloblástica, a falta de folato ou de B12 trava a síntese de DNA: o núcleo não amadurece enquanto o citoplasma segue enchendo de hemoglobina, e a célula fica gigante. A destruição dos precursores dentro da medula dá marcadores de hemólise com reticulócitos baixos. O ácido metilmalônico separa as duas: normal no folato, alto na B12. Só a B12 dá quadro neurológico.
Comparativo
VCM, ferritina, ferro sérico, TIBC, saturação de transferrina e RDW: como cada exame se comporta nas três.
| Exame | Ferropriva | Doença crônica | Talassemia |
|---|---|---|---|
| VCM | Microcítica (< 80) | Normocítica (80-100) | Microcítica (< 80) |
| Ferritina | Baixa | Alta | Normal ou alta (sobrecarga) |
| Ferro sérico | Baixo | Baixo | Normal |
| Transferrina / TIBC | Alta | Baixa ou normal | Normal |
| Saturação de transferrina (IST) | Baixa | Baixa ou limítrofe | Normal |
| RDW | Aumentado (> 14,5%) | Normal | Normal |
Arraste a tabela para o lado.
Na prática
O raciocínio da ficha na ordem em que você pede os exames, interpreta e define a reposição.
Hb abaixo de 13 g/dL no homem e de 12 g/dL na mulher. Na gestante, o corte é 11 no 1º trimestre e 10,5 no 2º e no 3º; na criança até 12 anos, cerca de 11 a 11,5.
Acima de 2% ou de 100.000, a medula responde: sangramento agudo ou hemólise. Abaixo, a anemia é hipoproliferativa: falta de material, medula vazia ou medula ocupada. Para corrigir, divida o hematócrito do paciente por 45% e multiplique pela porcentagem de reticulócitos.
VCM abaixo de 80 é microcítica (ferropriva, talassemia); de 80 a 100, normocítica (doença crônica, ferropriva precoce, doença renal); acima de 100, macrocítica. Na microcitose, RDW acima de 14,5% aponta ferropriva e RDW normal aponta talassemia.
Ferritina baixa indica ferropriva e pode cair com o hemograma ainda normal. Ferro baixo com ferritina alta é doença crônica: a ferritina também é proteína de fase aguda e sobe na inflamação. Na talassemia, ferro sérico, TIBC e IST ficam normais. Plaquetose com IST muito baixo reforça ferropenia.
O ferro quase não é eliminado: ferro baixo significa perda ou má absorção. No adulto e no idoso, suspeite de câncer colorretal e peça colonoscopia; na mulher jovem, investigue primeiro o fluxo menstrual. Inicie o sulfato ferroso sem esperar a causa.
Hipotireoidismo, alcoolismo, doença hepática e reticulocitose também elevam o VCM. Marcadores de hemólise com reticulócitos baixos apontam eritropoiese ineficaz, e o neutrófilo hipersegmentado reforça megaloblástica. Ácido metilmalônico alto e sintoma neurológico apontam B12.
No tratamento da anemia megaloblástica, o ácido fólico vai por via oral, que funciona mesmo em quem absorve mal. A B12 é IM como regra: cianocobalamina 1000 mcg/dia, depois semanal e mensal; a via oral fica para quem comprovadamente absorve. Com sintoma neurológico ou dúvida de B12, nunca reponha só folato.
Perguntas frequentes
Pelo RDW. As duas são microcíticas, mas na ferropriva o ferro é distribuído de forma desigual e o RDW passa de 14,5%. Na talassemia a globina falta igual para todas as hemácias, que ficam pequenas e uniformes, com RDW normal. Na cinética do ferro, a talassemia tem ferro sérico, TIBC e saturação normais e ferritina normal ou alta por sobrecarga.
Pela ferritina. Na ferropriva ela é o primeiro exame a cair e fica baixa, com TIBC alta. Na doença crônica o ferro sérico também cai, mas a ferritina sobe, porque é proteína de fase aguda, e a TIBC fica baixa ou normal. O RDW fica aumentado na ferropriva e normal na doença crônica.
A explicação da ficha é a semelhança estrutural entre a eritropoietina e a trombopoietina: na ferropriva, a eritropoietina também estimula os megacariócitos e gera trombocitose reativa. Numa anemia já confirmada microcítica e hipocrômica, plaquetose com saturação de transferrina muito baixa é a combinação clássica de ferropenia.
Hipoproliferativa, por falta de material. A medula destrói os precursores defeituosos dentro dela, o que se chama eritropoiese ineficaz. Por isso os marcadores de hemólise vêm positivos, com DHL e bilirrubina indireta altas e haptoglobina baixa, e os reticulócitos ficam baixos. Na hemólise verdadeira, a medula responde com reticulócitos altos.
Anemia megaloblástica é o quadro de síntese de DNA travada, causado na imensa maioria por falta de folato ou de B12. A anemia perniciosa é a causa autoimune de falta de B12: o anti-célula parietal leva à gastrite atrófica e o anti-fator intrínseco impede o transporte da B12. O diagnóstico é por anticorpos e endoscopia com atrofia gástrica.
Sim. A homocisteína sobe nas duas deficiências e não separa. O ácido metilmalônico fica normal na deficiência de folato e alto na de B12, que participa da mielina por essa via. Por isso só a B12 dá anemia com parestesia simétrica de membros inferiores, perda de sensibilidade vibratória e de posição, déficit cognitivo e ataxia.
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Oftalmologia
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